Tap Web Cíntia Martin

Um mundo de SAPATEADO

Entrevista de Adriana Brunato a Cintia Martin – Abril de 2001

Com prazer trago a vocês uma entrevista muito bacana com Adriana Brunato, diretora da Companhia Brasileira de Sapateado (CBS), sediada em São José dos Campos.

Adriana é uma estudiosa sobre a arte do sapateado e possui uma academia linda, com salas amplas e adequadas para o sapateado americano. Tive a oportunidade de nesse mês de abril ir a sua academia lecionar um curso onde encontrei mais de 60 alunos, quase todos de sua escola, com um nível surpreendente e muita energia e vontade de aprender. Isso é resultado de um trabalho bem feito, com respeito e dedicação, que Adriana passa.

Desejo toda sorte e sucesso para Adriana em seu trabalho e que continue com essa força, respeito, amor e dedicação, com os alunos e o sapateado: adorei estar na CBS.

Cintia Martin

Com quantos anos iniciou a dança e aonde ?

Iniciei meus estudos de sapateado com 07 anos de idade. Desde pequena, adorava assistir os musicais de Fred Astaire, Gene Kelly, Nicholas Brothers entre outros. Na época da adolescência, ia até locadoras de vídeo e procurava todos os filmes possíveis que tivessem dança, em especial o sapateado.

Chegou um momento em que comecei a ganhar os vídeos de tanto que alugava. Com quatorze anos mais ou menos fiz um solo de sapateado em uma apresentação de dança, tendo uma repercussão muito grande, e foi a partir daí que começaram os convites para dar aulas em academias na cidade.

Comecei a ministrar aulas e fazer aulas em São Paulo com as mestras Marchina e Kika, depois fui para o Rio na época da primeira formação da Orquestra Brasileira de Sapateado, onde conheci Cintia Martin, Steven Harper, Stela Antunes, Amália Machado, Maurício Silva e Orlando Leal.

Logo em seguida fui a New York para me aprimorar, onde fiz aulas com grandes mestres do sapateado americano, e daí por diante, não parei mais.

Quais as dificuldades que enfrentou no início ?

Muitas, começando por alguns bailarinos que não consideram o sapateado como dança. Depois, as salas geralmente não são de acordo para o sapateado, então temos que dar aulas em vários tipos de piso e improvisar. Os palcos na maioria das vezes nunca são montados visando também o sapateado, então geralmente fazemos coreografias contando com os imprevistos.

Mas temos sorte de o sapateado ser uma modalidade muito contagiante. Atinge várias idades e todos os níveis sociais. É incrível, mas parece que conseguimos falar uma só língua, e com isso, vamos vencendo as barreiras.

É questão de pouco tempo para convencer as pessoas do que realmente precisamos para o sapateado, então é só levar na esportiva. E também por outro lado, é questão de inserir a modalidade em nossa cultura com respeito. Minha luta juntamente com pessoas de renome no Brasil era de divulgar como uma dança tão séria quanto as demais. Daí, criou-se a Associação Brasileira de Sapateado. Eu representava o estado de São Paulo junto com Marchina, Kika, Luizz e Kátia Barão (me desculpem se esqueci de algum nome). Pena que acabou, pois era uma proposta extremamente séria e nos dava muita força para divulgar o sapateado brasileiro.

Quando e por quê resolveu ter sua própria academia ?

Inicialmente, pensava em trazer a Associação para cá, e segundo, por vontade de criar um estilo próprio, crescer profissionalmente.

Já fiz vários eventos aqui na cidade e que acabaram repercutindo nacionalmente, como uma Jam Session de sapateado em 1997 com a participação de Eduardo Santos, Steven Harper, sapateadores de São Paulo entre outros, e lotou o local (inclusive de público leigo) e teve o incentivo de vários meios de comunicação. A matéria da Globo que foi ao ar por duas vezes pela qualidade do jornalismo e da matéria em si (uma durante a semana e outra no sábado).

Pensando em poder organizar novos eventos e com uma proposta de levar a lugares onde o público não têm acesso que resolvi ter a minha própria academia de sapateado.

Aqui temos nosso espaço bem voltado para a modalidade, a sala é própria para sapatear. Temos um mini estúdio onde produzimos nossas trilhas, vários livros e vídeos sobre diversos estilos. É um cantinho aonde não se têm preconceito entre modalidades. Cada um têm a sua importância. E deu certo, recebemos sapateadores de várias cidades inclusive intercambistas que escolhem o Brasil para uma troca de informações, a última intercambista que veio, passou um mês com a gente, ela tinha aula de sapateado americano comigo e como fazia parte de um grupo de Irish Tap em seu país natal, ministrou aulas aqui para os alunos durante o mês de julho. Foi bárbaro !

No início, quantas alunas tinha ?

Quando comecei, ninguém acreditava que o sapateado pudesse ir para frente, era quase inexistente. Comecei com cinco alunas, depois da primeira apresentação no final do ano, já com sete alunas, o número triplicou. A cada ano ia tomando uma proporção maravilhosa, e o peso da responsabilidade aumentando. Em quatro anos, tinha aproximadamente duzentos alunos. As turmas estavam lotadas.

Como você define seu trabalho ?

Acho que tenho um estilo próprio de sapatear, e gosto de manter isso. É legal aprender vários, adoro ! Mas quando consegue realmente se definir, o resultado é muito legal.

Não surgem comparações, é simplesmente você. Não significa que sou fechada para outros, pelo contrário, gosto de experimentar e muito. São tantos os sapateadores pelo mundo, não teria graça se fossemos todos iguais!

Qual a sua especialidade na dança ?

Acredito que todo o bailarino têm que ser completo. Por este motivo, fiz aulas de canto, dança teatro, jazz, clássico, dança de rua, afro e comecei artes cênicas na escola Célia Helena em São Paulo.

Sou bem flexível, tenho bastante facilidade para incorporar um estilo, mas o sapateado de Gregory Hines, que na minha concepção é completo, têm a minha preferência.

Além de aulas normais, existem grupos especiais ?

Existem grupos para pessoas que querem a modalidade para se livrar do stresse, são profissionais das mais diversas áreas com mais de trinta anos de idade que sempre apreciaram a dança mas nunca fizeram por não ter disponível uma aula específica para eles. Com um grande sucesso, essa turma está sendo cada vez mais procurada e pretendemos colocá-los em palco no final do ano.

Na sua análise, quais as diferenças básicas entre grupos amadores e profissionais ?

É uma questão um pouco complicada, afinal os pontos de vista são bem singulares. Na minha concepção deveria ser formado por profissionais na área, reconhecidos pelo público e crítica, com técnica e cabeça de profissional.

Presenciamos muitos grupos que não duram por cada um defender seu estilo não aceitando opinião de outros que compõe a mesma companhia. Ser profissional é compartilhar informações, e acima de tudo, ser profissional não significa, não estar presente, quanto mais profissional, mais responsabilidade e maior o empenho, pela própria cobrança do público. Talvez essa seja a receita.

E os amadores teoricamente deveriam aprender com os erros dos profissionais, se isso fosse possível na prática… (têm todo um processo a ser desenvolvido, experimentar, ousar, passar por alegrias e decepções e descobrir seu estilo).

Atualmente a CBS está com quatro grupos: um profissional composto por sete pessoas, um amador composto por quinze pessoas, um grupinho composto por vinte e duas crianças e um grupo masculino composto por quinze homens.

Dá trabalho, mas o prazer de vê-los em palco é muito maior.

Foto do Grupo profissional

Quando se profissionalizou ?

Quando a ficha caiu. Do que realmente queria para mim, comecei a entrar nos palcos e ser reconhecida. Tinham pessoas que procuravam saber aonde estaria dançando para poder me assistir, pessoas que não conhecia. Era como um pequeno grupo de admiradores. Isso me empurrou para cima, e vocês sabem, a responsabilidade faz com que as coisas aconteçam naturalmente, sou muito tímida, mas quando estou no palco me transformo, uma definição ótima para isso é do filme Billy Elliot: “É como a eletricidade.”

Hoje a CBS é composta por quantas pessoas e qual faixa etária ela atua ?

A CBS hoje têm por volta de cento e cinquenta sapateadores, sem contar as outras modalidades. Espero que possamos fechar com mais de duzentos este ano. Atua em todas as faixas etárias. Para mim, é uma conquista muito grande.

O que você acha que é necessário para participar de grandes festivais ?

No Brasil, estou tentando descobrir. Até agora não consegui entender o método de seleção. Até então, passamos na maioria deles, mas conheço grandes coreógrafos que se decepcionam muito com isso, entramos daí na questão de pessoas qualificadas para julgar o sapateado. Mas aos poucos iremos conquistar nosso espaço. Eu acredito muito nisso. Agora, quanto ao coreógrafo, um trabalho clean é essencial.

Qual o seu grande sonho na profissão ?

Que a dança se torne uma arte acessível e respeitada em nosso país, que os bailarinos que se dedicam por opção exclusivamente a dança possam se deleitar da arte em seu mais puro sentido e não terem que vender-se dançando coisas para nós consideradas desnecessárias só por uma imposição do modismo do Brasil.

O público brasileiro merece assistir a um verdadeiro show de dança com grandes empresas acreditando e investindo nessa idéia. Acreditando que somos capazes de levar e divulgar a sua marca e fazer valer o nosso esforço.

“Que patrocinar arte seja mais atrativo e menos burocrático”.

Qual foi a maior emoção que a dança lhe deu ?

O sonho de meu pai era poder dançar, adorava os musicais mas naquela época o preconceito era bem maior. Realizei seu sonho sem saber, não foi uma coisa imposta, ele me contou um pouco antes de nos deixar, até fazia aulas de sapateado no final de sua vida.

Continuo tendo emoções todos os dias, é só olhar para o crescimento das pessoas que ensino, e pensar em quantas vidas estou ajudando a educar e inserindo a arte, e quantas pessoas passarão tudo isso para frente.

Como você vê a dança no Vale do Paraíba e especialmente em São José dos Campos ?

São José está se tornando um grande centro de dança, existem muitas academias e muitas pessoas fazendo dança. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo, sinto que existem muitos professores que precisariam de um pouco mais de maturidade para ministrarem suas aulas, reciclar é fundamental, conheço pessoas que dão aula e nunca fizeram um curso de dança e não têm noção de quem são os grandes nomes dos sapateado mundial, isso reflete um pouco talvez na falta incentivo por parte das autoridades locais por não conhecerem a verdadeira situação.

Você teve alguma influencia no início ?

Tenho que admitir que fiquei fascinada pelo filme Tap com Gregory Hines a algum tempo atrás. Assistia muitas vezes, esse foi um dos filmes que ganhei do dono da locadora ! Tentei imita-lo no início, não que tivesse conseguido, afinal, é o papa. Mas me impulsionou e cresci muito.

Por quê Companhia Brasileira de Sapateado ?

A Companhia surgiu de um ideal de tornar o sapateado aqui no Estado de São Paulo e Brasil muito mais popular e reconhecido pelo público, podendo trazer vários cursos para a cidade e região tornando o acesso um pouco mais fácil para quem não consegue estar em eventos tão importantes para nós como o Tap Encontro organizado por Claudio Figueira.

Trabalhamos também como Companhia estando juntamente com a Rede Globo regional e SESI com o projeto “Música na Cidade”, aonde músicos e sapateadores excurssionavam levando o chorinho, alguns boleros e o samba para o público dançar e se emocionar em palcos montados em praças nas cidades aonde íamos, é uma proposta maravilhosa tanto pela experiência quanto pela divulgação do sapateado.

Finalizando, a Companhia Brasileira de sapateado é um cantinho aonde temos um bom material relacionado com esta arte. Livros estão disponíveis para os apreciadores da arte e vídeos também. Divulgamos sempre de uma forma bem variada essa modalidade em seus diversos estilos.

Quais os seus projetos para a CBS ?

Estamos com dois projetos em andamento. O primeiro é formar um grupo de sapateadores, estamos preparando aproximadamente quinze homens para estrear nos palcos o próximo ano, e o outro é um trabalho com poucos sapateadores e um percussionista muito conhecido no estado de São Paulo chamado Newton Blau, os dois estão em fase de aprimoramento, mas ambos, tenho certeza, que serão bem interessantes e levarei para o próximo Tap Encontro para que o público possa prestigiar.

Quais os seus ídolos na dança ? E na vida pessoal ?

É díficil falar de ídolos quando existem estilos tão particulares. Mas admiro muito Brenda Buffalino, Jimmy Slide, Nicholas Brothers, Chuck Green e Gregory Hines. Mas com certeza estou me esquecendo de mais sapateadores.

Já na vida pessoal, hoje, bem mais madura, posso dizer seguramente: meu pai.

Como se mantém informado sobre o mundo da dança ?

Através da Internet, da ITA, cursos no exterior e é claro entre nossos colegas.

Como prepara sua metodologia de ensino ?

Não sigo nenhuma metodologia específica, tiro o melhor de cada mestre de sapateado, e aplico de acordo com cada turma. O sapateador deve, na mionha concepção ser trabalhado como um todo, sendo assim, preparo cada um em particular e deixo o seu estilo aflorar sem impor o meu ou de fulano. O aluno têm informações para ele mesmo poder definir com maturidade a linha que queira seguir.

O que a dança representa para Adriana Brunato ?

Eu respiro a minha arte, é nela que deixarei a marca da minha passagem pela vida através da expressão de meus sentimentos dançando ou ensinando. As pessoas conseguem enxergar a alma do artista dentro de suas obras, eu espero deixar algo marcante que possa ser seguido como exemplo.

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