Tap Web Cíntia Martin

Um mundo de SAPATEADO

Entrevista de Bia Mattar a Cintia Martin – Julho de 1999

Bia Mattar é a nossa entrevistada deste mês.

Bia reside em Florianópolis há alguns anos se dedicando a lecionar e estudar muito sobre diversos estilos de danças. Com formação inicialmente clássica mas diversificada com o passar dos anos, dedicou-se ao sapateado e hoje dirige uma companhia, a “Patibiribia”, e organiza eventos na cidade.

Bia é uma amigona, uma pessoa muito sincera e carismática, que encanta a todos com sua humildade e alegria. Conheçam um pouco dessa lutadora pela arte do sapateado no Sul do País e dessa pessoa incrível que é a Bia.

Obrigada Bia, pela oportunidade, beijinhos da amiga

Cintia Martin

Bia, fale um pouco da sua experiência profissional. Você era bailarina clássica, não era ?

Cíntia, acho difícil especificar que tipo de bailarina eu sou. Freqüento academia de dança desde os 4 anos (hoje tenho 33), minha mãe era bailarina do Teatro Municipal de São Paulo, (da turma da Maria Pia Finóchio, Marília Franco e outras), enfim, sou a primeira filha de 4 irmãos. Acredito realmente que tive que esticar as pontas dos pés para sair da barriga dela!!! (Risadas)

Fiz todos os cursos que encontrei pela frente desde ballet clássico até artes marciais, mergulho, patinação. Em espetáculos de final de ano chegava a trocar de roupa sete vezes, pois dançava com todos os cursos. Participei de trabalhos profissionais de dança clássica e principalmente dança moderna e jazz. Sou uma aficcionada pelas artes corporais e hoje em dia utilizo a dança profissionalmente e terapeuticamente, acreditando que ela cura, harmoniza e liberta o Ser.

Paralelamente à dança, fiz curso técnico de processamento de dados e faculdade de psicologia. Parece incrível, mas essas 3 áreas estão sempre em conexão com a minha carreira de bailarina e sapateadora, para dar aulas, coreografar, produzir espetáculos.

Você sempre estudou em Florianópolis ? Conte um pouco pra gente a sua trajetória. Como e quando acendeu a chama pelo sapateado ?

Sou paulista e estudei dança em São Paulo, formada pela Escola de Ballet Evelyn em São Bernardo do Campo, onde tive as melhores experiências da minha vida e que estão gravadas com muito carinho e reconhecimento. Desde aprender e aperfeiçoar técnicas até o conceito do valor moral e social que esta arte nos traz.

Em 1990, me casei e vim morar em Florianópolis – Santa Catarina. Com meu curriculum embaixo do braço, arrumei emprego rapidinho e a qualidade de vida daqui me conquistou, apesar de ter que abrir mão da “fervura”cultural de um grande centro, porém também abri mão da violência e do stress deste mesmo centro. No início lecionava clássico e jazz e devido ao interesse pelo sapateado utilizei-me do pouco que havia aprendido em São Paulo e comecei a dar aulas de sapateado também. Num certo momento cheguei a ter o dobro de alunos de sapateado do que de clássico e de jazz, então vi que era hora de investir pois o conteúdo que eu possuía era muito pouco para desenvolver um trabalho de qualidade.

Tudo isso coincidiu (graças a Deus!!!) aos Encontros Internacionais de Sapateado realizados pela Stella Antunes e uma equipe maravilhosa que a acompanhava em que VOCÊ , eu sei, era uma delas. Me lembro ainda perfeitamente quando te vi pela primeira vez, organizando as fichas, as inscrições numa mesa cheia de papéis, e quando você me viu falou assim: “- Você parece tanto com uma sapateadora da ATDO…”. Era nada mais nada menos que uma comparação (física unicamente) com Bárbara Duffy, pode? Outros cursos que me ajudaram bastante foram os da Kátia Barão em São Paulo e a partir daí não parei de freqüentar, sempre que possível, cursos e encontros. Enquanto estudava em São Paulo, fiz aulas com a Marchina e viajei para Nova York, porém na época os investimentos eram nas técnicas de dança moderna e jazz.

Fale sobre o “Bia Vilela Espaço de Dança”. É seu ? Quais foram as dificuldades e como tem sido hoje ?

Não, a escola não é minha, sou apenas professora. Minha mãe teve escola de dança em São Paulo e sei a dificuldade que é manter uma estrutura física, ter que estar dia e noite administrando, verificar se a faxineira veio ou não e se a sala está limpa, pagar todos os impostos de uma pessoa jurídica que ainda são absurdos para uma pequena empresa em nosso País… enfim, tento estar inteira para os meus alunos e meus projetos quando entro na Academia e conto com diretores e donos de academia fantásticos que me apóiam e incentivam o meu trabalho e quando vou embora da Academia deito minha cabecinha no meu travesseiro e gasto meus neurônios decorando sequências, montando espetáculos, ligando para os profissionais com quem pretendo estabelecer parcerias no qual tenho o maior prazer, curtindo minha filhinha de 5 anos e meu maridão Rodrigo. (Você me entende…?) Eu acho o máximo quem tem Academia, é professora, tem grupo de dança, e ainda por cima dança, como é o caso da Christiane de Campinas na última entrevista da sua página. Parabéns Chris!!!

Você também é diretora e coreógrafa de um grupo de sapateado chamado “Patibiribia”. Como e quando você o formou e com quais objetivos ?

Ah! Isso sim… Este trabalho tem sido minha realização na área do sapateado. A partir do momento em que pude contar com uma equipe que tivesse um nível melhor tecnicamente, que quisesse avançar profissionalmente e “vestiu a camisa” comigo senti a necessidade de formar um grupo, isso foi em 1998, mais especificamente para a concorrência de um edital público estadual que destinava verba a grupos de dança. Corri igual uma louca atrás de todo registro e documentação, entramos no edital e ganhamos com o projeto “Berimbau Tap” , foi bom demais, apesar de não ter recebido a grana ainda e nem sei se vou receber – processos políticos. De qualquer maneira, com dinheiro ou sem dinheiro, o projeto nasceu, o grupo se fortaleceu e a parceria com o grupo de bateria e percussão do Rodrigo (meu marido), a coreografia que a Valéria Pinheiro fez para o grupo (maravilhosa), os ensaios diários, aulas de música e dança tem nos dado reconhecimento artístico em todos os locais em que nos apresentamos. Maiores detalhes do projeto podem ser encontrados na minha homepage:

http://www.iaccess.com.br/~bia

No momento somos 4 sapateadoras, 3 percussionistas e 2 capoeiristas. Para o próximo projeto, novas parcerias serão feitas e que por enquanto ainda é segredo…

Existem muitas academias em Florianópolis onde se leciona o sapateado ? Qual o nível do sapateado em Floripa ?

O trabalho mais dirigido ao sapateado é encontrado na Academia que dou aulas, mas existem professoras que estudaram comigo que dão aulas em outras escolas mas o trabalho ainda é tímido. Eu e meu grupo estamos sempre fazendo cursos, aulas complementares de música e outros estilos, aperfeiçoando e irei utilizar uma frase que o Steven falou aqui em seu último curso e show : “Não somos o que fomos há 10 anos atrás e com certeza não seremos os mesmos daqui a 10 anos”. Porque a dança, o sapateado, não é estático, está em constante movimento, acompanhando tendências como todo o Universo.

Você costuma viajar todos os anos para cursos em diversas cidades do Brasil e exterior, inclusive foi assim que nos conhecemos em 1993, tenho muitas lembranças… Sei que todas os eventos de que participou trouxeram a você muitas experiências maravilhosas, mas há alguma em particular que te vem a lembrança até hoje ?

Com certeza, tenho muitos momentos maravilhosos e marcantes, vou citar dois deles:

O I Encontro Internacional de Sapateado/RJ, onde pude ter contato com diversos sapateadores de todos os estados do País, conhecer você, e logicamente fazer aulas com o Van “The Man” e com a Bárbara Duffy com quem fiz vários cursos aqui e nos Estados Unidos e adoro o estilo dela, aliás já estou com saudades de fazer suas aulas.

O segundo momento marcante foi certamente a presença de Jimmy Slyde aqui bem pertinho no Tap Encontro/98, eu chorava tanto de emoção ao vê-lo, tocá-lo, falar com ele, sem contar a rosa que me ofereceu do buquê que ele recebeu no final do espetáculo, até hoje a guardo (desidratada) em meu santuário de lembranças felizes.

Você, sempre que pode, tem organizado alguns eventos em sua cidade, fale um pouco sobre eles. Já há algum projeto novo a curto ou médio prazo ?

Já realizei alguns eventos de dança e sapateado aqui em Florianópolis, já trouxe o Steven Harper para shows, a Valéria Pinheiro para curso e coreografar, festas em comemoração ao Dia do Sapateado, e participação em vários festivais locais como os de Joinville e a Mostra de Dança de Florianópolis na qual este ano conquistamos uma noite só dedicada ao Sapateado. Atualmente sou presidente da Associação dos Profissionais de Dança de Santa Catarina, participo de Comissões Estaduais de Política Cultural e tenho aprendido muito, desde como planejar até executar projetos culturais. Temos que cada vez mais nos profissionalizar, atuar no mercado de trabalho com embasamento de marketing cultural, leis de incentivo, patrocínio da iniciativa privada e fortalecer o conceito de que “CULTURA É UM BOM NEGÓCIO”. Se todos se unirem, artistas, empresários, governo e mídia, a produção cultural de sua cidade, de seu País só tende a crescer e melhorar em qualidade. Devido às dificuldades financeiras por que anda passando o País só tenho projetos a médio prazo para ter tempo de produzi-los e estabelecer as parcerias, porque hoje em dia realizar qualquer evento ou produção sozinho é loucura, custa caro e quem acaba pagando o pato é o próprio produtor.

Existe algum estilo de sapateado com o qual você se identifica mais?

Não. Procuro trabalhar todos os estilos e dependendo da fase em que estou passando posso contar com um “soft shoe”, da condição física para um “flash”, explorar o ritmo de diversas maneiras ou até mesmo só tocar um atabaque para que alguém sapateie é sempre bom demais…

E o “Berimbau Tap” ? Como é e como surgiu essa idéia ?

Como eu te disse, eu gosto de conhecer maneiras novas de me expressar com o corpo e resolvi fazer aulas de capoeira por todo o contexto cultural que ela representa para o Brasil, quando entendi a filosofia desta arte, suas histórias, seus instrumentos e suas cantorias me apaixonei e resolvi explorar os diversos toques do Berimbau e dos instrumentos de percussão. Então falei com o “Bode”, meu instrutor e joguei a minha idéia e ele adorou. Infelizmente tive que parar a capoeira pois a exigência estava sendo grande, você tem que participar de rodas de capoeira em diversos lugares e várias vezes por mês, ir a “batizados” para troca de faixa, malhar muito… Enfim, para fazer bem feito tem que incorporar a capoeira na sua vida e nesse momento não tenho este tempo disponível. Sempre que preciso chamo os capoeiristas para fazer a apresentação do “Berimbau Tap”.

Você por ser bailarina, tem muita conscientização da importância da prática de um outro estilo de dança tipo Ballet, Jazz ou alongamento para um sapateador. Gostaria que você falasse um pouco sobre isso com relação à sua experiência.

Eu acho que cada estilo de dança complementa o outro, mas sinceramente acredito que não seja imprescindível ter passado por esses estilos para ser um bom sapateador. A grande maioria das alunas que passam por mim dizem a mesma coisa: – “Já fiz de tudo, balé, jazz, contemporâneo e só consegui ficar por mais de um ano no sapateado, é a única dança que eu gostei!”. Hoje tenho alunas que estão há 6 anos comigo. Sabe porque? Porque sapatear não é apenas dança, é música na essência, é feeling no sentimento, é tesão em trazer o som do chão para as mãos, o ombro, os braços, a cabeça, o último fio de cabelo ou de pêlo do corpo.

O que você pretende alcançar ou acha que está mudando em termos de mídia, realização e crescimento do sapateado em Florianópolis ?

O espaço já está aberto, o respeito pelo sapateado é unânime, a mídia é maravilhosa em todos os eventos e daqui para frente é aperfeiçoar, profissionalizar e pesquisar sempre.

E no Brasil como um todo ? Como você vê o sapateado hoje no Brasil e que futuro você enxerga ou espera daqui por diante ?

Ainda faltam eventos para os sapateadores com qualidade de palco, de sonorização, iluminação, estadia e alimentação, bem como espaço para debates sobre a técnica, a didática, a nomenclatura. Neste sentido, os encontros do Rio de Janeiro tem sido os melhores, mas para as pessoas que são de outros Estados ainda são muito caros. Atualmente estou participando mais de encontros de música do que de dança, devido a problemas de ter que tirar o linóleo, a sonorização é básica e sem condições de amplificação do som do sapato, ou palcos muito grandes e sem acústica como o caso de Joinville. Proponho que os grupos, professores e coreógrafos se reúnam e façam um superfestival de sapateado.

Deixe seu recado aos sapateadores do Brasil e a quem deseja iniciar na arte do sapateado.

É preciso questionar, investigar, obter o maior número de informações possíveis sobre o curso, o professor, a academia, pois o corpo é seu e o reflexo de exercícios feitos de forma inconscientemente errada virão com a idade, na sua coluna, no seu joelho. Experimente, faça diversas aulas, com diversos professores e escolha o estilo que mais lhe agrada e se adapta com seu corpo e, falando nisso, alertar “você já olhou para o seu corpo hoje? Aonde está tenso? Está sobrando uma gordurinha aqui? Você consegue tocar o chão sem dobrar os joelhos?” O meu recado é: “Conhece a ti mesmo”!!! E depois desses passos básicos é só entrar na aula e colocar a tríade “corpo-mente-espírito” a seu favor, para estar bem e fazendo o que gosta.

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