Tap Web Cíntia Martin

Um mundo de SAPATEADO

Entrevista de Cíntia Chamecki a Cintia Martin – Agosto de 1998

Cíntia Chamecki nasceu em Curitiba, onde iniciou seus estudos de dança. Sempre buscou crescer cada dia mais, e deixou Curitiba em 97 seguindo para Nova York onde reside desde então. Em um ano e meio já conquistou muita coisa, passando por companhias, fazendo cinema, vários shows e performances. Conheça um pouco da grande sapateadora Cíntia Chamecki que, além de muito talento, possui uma grande personalidade. Chamecki é uma pessoa muito determinada e uma grande amiga.

Cintia Martin

Você está tendo a oportunidade de fazer as melhores aulas de sapateado diariamente. O que você acha que está te acrescentando mais no fato de estar vivendo em NY ?

Pra mim foi muito difícil de administrar o fato de eu ter oportunidade de fazer todas essas aulas e nao ter tempo. Mas hoje em dia isso nao me incomoda tanto.Eu vou quando eu posso, ainda tenho fome de aprender, mas descobri que muitas vezes eu posso ser minha melhor professora. Acho que o que NY mais me ensinou foi que, depois de um certo nível, vale muito mais uma hora sozinha num studio do que 10 aulas.

Como é o dia a dia junto aos maiores sapateadores mundiais ?

É maravilhoso e amedrontador ao mesmo tempo. E muito intenso tambem… O Savion Glover, por exemplo, a cada dia em que o vejo dançar, ele está melhor, mais rápido, mais claro e mais GENIO. Então é simplesmente amedrontador, porque eu fico pensando aonde isso pode chegar, qual é o maximo dele, será que ele tem um maximo? É serio… E ao mesmo tempo é maravilhoso, uma injeção de ânimo e de querer ultrapassar os limites.

Você estava ensaindo com um sapateador que fez Tap Dogs, como foi essa experiência ?

Estou, Barry Blumenfeld. Mas na verdade ele fez durante muito pouco tempo o Tap Dogs, acho que so um mes. Nós nos encontramos numa das CIAs que eu danço, SLAM!. Fomos dançar no Hawaii e depois em Atlanta, e acabamos descobrindo que pensamos mais ou menos da mesma maneira em relação ao sapateado. Comecamos a nos encontrar só pra trocar idéias e improvisar. Acabamos coreografando também e agora temos 2 performances marcadas.

Você me contou que quando foi fazer a aula de improviso da Barbara Duffy e havia um aluno muito especial na classe, nada menos que “Gregory Hines” em pessoa. Ficaria maluca se issso tivesse acontecido comigo. Conte um caso para nós que tenha sido imperdível ou inesquecível para você.

Esse foi um dos imperdíveis. Ele sempre elogiou muito a Barbara Duffy por essa aula de improvisação. Então um dia ele resolveu aparecer, foi maravilhoso e amedrontador (agora acho que dá pra entender o que eu quis dizer lá em cima). Sapatear na frente dele é pior (ou melhor) do que num teatro com 20000 pessoas… a adrenalina foi lá em cima. Mas ele foi super simples e deu a maior força. Ficamos um tempo improvisando depois que acabou a aula e ele deu uns toques que, claro, nunca vou esquecer.

Outro caso imperdível e inesquecível foi no Savion Glover Downtown. É o novo show dele. Depois da ultima coreografia ele pega o microfone e fala “the floor is open”. O que significa, quem quiser vir improvisar aqui conosco sera bem vindo. Depois de muita luta comigo mesmo eu coloquei meu sapato e fui. Mais ninguem foi… fiquei muito orgulhosa de mim mesma durante algum tempo por ter conseguido não só subir no palco, mas tambem por ter “dito o que eu queria dizer”.

Qual a maior dificuldade que você encontrou ou está em encontrando em viver Nova Iorque, sendo uma estrangeira ?

A maior dificuldade é exatamente essa: ser uma estrangeira. Eu nao tenho o green card ainda, o que me dificulta muito em arranjar emprego. Além de que é muito dificil eu me sentir em casa. Às vezes da vontade de falar portugues com meus amigos… sei lá, aquele tipo de piada que só dá certo em portugues. Essa é outra dificuldade, acho que eu perco um pouco da minha espontaneidade.

Você já tinha tido a oportunidade de viajar muitas vezes para os Estados Unidos para fazer cursos e já conhecia muitos dos sapateadores, com quem hoje você convive ao lado. Houve uma diferença de tratamento enquanto turista e agora como residente ? Você sofre algum tipo de discriminaçao no meio dos sapateadores por isso ?

O que aconteceu foi que eu fiquei mais intima das pessoas que eu já conhecia. Por exemplo, a Barbara Duffy que sempre foi minha professora, hoje em dia é minha amiga e me ajuda muito. Nunca senti discriminação. Sinto que agora que nao sou mais turista, sou mais respeitada, mais levada a serio.

Estava junto a você (1996) em NY, quando decidiu que no próximo ano iria se mudar para a “big apple” de vez. Participei desse seu sonho e junto sonhei, mas nao tive condições de ir além e lembro que minha família opinou muito sobre a minha viagem. Como foi isso com você, pois você tinha uma academia em Curitiba, bem conceituada e estabilizada. Como foi para seus pais ?

Acho que para os meus pais não foi facil, afinal eles ja tinham uma filha aqui. Mas eles sempre me deram a maior força, não tenho do que reclamar, só agradecer. Quanto à minha decisao de vir pra cá, é muito dificil explicar, simplesmente aconteceu. Acho que a unica que pode entender é voce por ter participado…

Primeiro, tudo me dizia que eu tinha que vir, parece que alguma coisa me empurrava pra cá… era um sonho que eu tinha a muito tempo. E daí eu me apaixonei, é claro que nao tive mais duvidas.

Quando você decidiu ir morar em NY, você já tinha uma irmã bailarina, que também lá morava (e que acaba de te dar um sobrinho), isso te ajudou na decisao, pois assim você nao se sentiria tao sozinha ?

Sem duvida. Não só uma irmã bailarina, mas uma irmã muito especial. Que sempre me ajudou sem medir forças. Ela e meu cunhado sao meio responsaveis pela minha vinda tambem.

Cintia, você foi a primeira brasileira integrante de uma Companhia americana especializada em sapateado, “The Manhattan Tap” ; como foi essa experiência para você? Como foram os ensaios, apresentaçoes ?

Quando eu entrei no Manhattan Tap, entraram junto comigo mais 9 sapateadores. Todos nós éramos aprendizes. Teríamos que aprender o show inteiro. Dois entrariam na companhia principal, 4 ficariam na segunda companhia e 4 cairiam fora. Os ensaios eram puxados, 3 vezes por semana das 9 da manha as 5 da tarde com uma hora para almoço. No começo teve um clima meio competitivo, mas a partir da segunda ou terceira semana, quando fomos nos conhecendo melhor, ficamos todos muito amigos. Sabíamos que todos eram otimos sapateadores, e que a escolha seria feita por diferencas de estilo. Aprendemos muito um com o outro. Ficavamos horas improvisando…

Depois dos ensaios, vieram as apresentacoes em escolas publicas de NY. Foram muito legais. Era o mesmo show que fariamos com a companhia principal, mas com explicacoes faladas para cada coreografia, como se fosse uma palestra. Eram dois shows por dia, uma ou duas vezes por semana. Depois disso, chegou a hora da escolha… e foi muito frustrante pra mim. Fui uma das escolhidas para a cia principal, e já estava ensaiando, pronta para ir em tour, quando o advogado ligou dizendo que eu nao poderia por nao ter o green card.

O que você mais sente falta no Brasil ?

O que eu mais sinto falta é de poder trabalhar sem culpa ou medo de estar fazendo alguma coisa errada. Sinto muita falta dos meus amigos e das minhas alunas. De ter um lugar pra poder praticar e ensaiar quando eu quiser (aqui cada hora num studio sai uns $10). De falar portugues toda hora. De pao de queijo, guaraná diet e muitas outras coisas.

Me lembro de ter falado algumas vezes com você por telefone em 1996 e você estava decidida a ir para NY no ano seguinte. Passou o ano elaborando e organizando sua vida para isso. O que mais você esperava em NY ? Qual era seu objetivo na cidade ?

Eu realmente esperava que tudo seria mais fácil. Eu lembro que eu queria entrar em alguma companhia de sapateado, ser coreografada, pois no Brasil eu sempre coreografei. Foi uma experiência boa.Ainda gosto de estar em coreografias que não são minhas, mas eu tambem amo criar. O que eu quero fazer agora é acabar o trabalho que eu estou fazendo com o Barry e começar a mostrar logo… ansiosíssima.

O que acontece de sapateado no momento em Manhattan ?

Todo domingo tem Jam Session no Swing 46 com o Buster Brown. Barbara Duffy faz um Tap Brunch todo domingo tambem (agora ela está de férias) no Zinno’s. Savion Glover encerrou o “Savion Glover Dontown” semana passada, mas com certeza volta pra cá depois do tour. E semana que vem Roxanne inaugura um espaco novo para sapateado.

Há uns clubes com noite de sapateado. Existe alguma audição para fazer performance ?

Não. No “Swing 46”, o Buster Brown chama quem quiser dançar. Quando tem muita gente, ele evita os solos e chama duos ou trios, o que é muito legal também. No Zinno’s só dançam sapateadores que a Barbara Duffy convida. Não é propriamente uma Jam Session, é mais um show, e por isso ela precisa conhecer quem vai subir no palco.

Você tem feito muitas performances ?

Com o Manhattan Tap, era pelo menos 1 vez por semana. Com o SLAM! eu faco mais ou menos 1 performance por mes. Fomos pro Hawaii, pra Atlanta, tivemos 3 performances aqui em NY e semana que vem estamos indo pra Orlando. Com a Peggy Spina Tap Company, a proxima performance é só em março. E no ano passado eu pude mostrar o meu trabalho no Dixon Place em maio e junho. Agora em setembro terei mais duas oportunidades de apresentar minha coreografia.

Alem disso, danço no “Swing 46” todo domingo e às vezes no Zinno’s com a Barbara Duffy.

Você fez um filme do Woody Allen, nao fez ?

Fui figurante. Não me pergunte como aconteceu, nem eu sei… fui a uma audição e ele me escolheu. Foi muito legal… é o proximo filme dele, “Celebrities”. Me procurem na cena do casamento, quem sabe eu apareço.

Quantas horas por dia você pratica ?

Eu nao sou muito disciplinada quanto a isso.Quando da um tempinho eu vou pro Studio praticar. Me obrigo a fazer isso pelo menos uma vez por semana. As vezes improviso com amigos e vou a Jam Sessions sempre que posso. Cheguei aqui sem saber improvisar, morria de medo. Hoje em dia é o que eu mais gosto de fazer.

Cada vez que vou a NY e faço aquelas aulas maravilhosas e lotadas, penso no quanto seria bom viver ali, tendo tudo aquilo a minha disposiçao 24h do dia… Mas já tentei morar e o máximo que fiquei foram 4 meses, pois meu dinheiro acabou e não consegui arrumar emprego. A competição é acirrada e o ritmo de vida completamente diferente. Você tem que estar bem centrado no seu objetivo, pois senão a vida se complica mesmo. Que conselho você daria a quem sonha ou pretende viver em NY ?

Venha, mas esteja preparado e disposto pra batalhar. Nao é facil, não pense que no primeiro mes um produtor da Broadway vai te ver numa aula e te chamar para um show. Pra quem nao tem permissao pra trabalhar aqui fica mais dificil ainda. Se puder, venha com alguem proximo do Brasil : isso tambem ajuda muito. E pense sempre que nao é o teu pais; o que voce for fazer, vai ter que começar do zero, o que tambem significa que cada degrau que voce subir vai ser muito mais gratificante. E, afinal de contas, se tudo der errado, voce ainda pode voltar pro Brasil. Ah, se precisar pode telefonar pra mim que eu ajudo no que eu puder. Boa Sorte!

Eu queria dizer tambem Muito Obrigada a você, Cíntia Martin, pela força que voce sempre me deu e pela oportunidade de abrir este espaco pra eu dizer o que eu penso. E sugiro que a proxima estrevistada seja com voce…

Cintia Chamecki, admiro muito sua força e coragem em busca do seu sonho. Você é muito talentosa já admirava muito seu sapateado e agora tenho certeza, que deve estar brilhando muito mais. Espero que você encontre forças para continuar e aprender cada vez mais. Torço por você a cada dia.

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