Tap Web Cíntia Martin

Um mundo de SAPATEADO

Entrevista de Margaret Morrison a Cintia Martin (1a. parte) – Outubro de 1999

Esse mês temos o prazer e o privilégio de colocar no ar uma entrevista especialíssima com uma das maiores sapateadoras e mestras da história do sapateado atual, Margaret Morisson.

Margaret é americana, nascida em Los Angeles, e é integrante da American Tap Dance Orchestra (ATDO) desde 1986. Já dançou em muitos dos maiores eventos de sapateado pelo mundo e junto aos grandes mestres, como Brenda Bufalino, Jimmy Slyde, Chucky Green, Lon Chaney, Savion Glover, Gregory Hines, dentre outros.

Margaret, além de uma excelente sapateadora, é uma mestra maravilhosa. Existem pessoas que nasceram com o dom de ensinar e Margaret sem dúvida é uma delas. Já fiz diversas aulas dela e em cada aula aprendo algo novo; sua disponibilidade de ensinar e de descobrir a melhor maneira de passar seus conhecimentos ao aluno é de se admirar.

Sou suspeita para fazer qualquer comentário, pois sou fã de carterinha da Margaret, portanto fiquem com a entrevista e deliciem-se.

Fica aqui meu agradecimento sincero e todo especial a Margaret Morrison que, com muito carinho e atenção, nos concedeu essa entrevista. É um prazer para nós, brasileiros.
Sucesso para você sempre, Margaret !

Cintia Martin

Onde você nasceu ? Você sempre morou na cidade de Nova Iorque ?

Eu nasci em Los Angeles e me mudei para a cidade de Nova Iorque quando eu tinha 17 anos, para ir para o Barnard College, Universidade de Columbia.

Como você conheceu o Sapateado ? Quando você comecou, e como o sapateado se tornou um grande amor na sua vida ?

Eu comecei estudando sapateado e balé quando eu tinha 10 anos de idade. Também comecei assistindo os antigos musicais de Hollywood quando era criança e amava toda aquela dança, especialmente o sapateado. Quando eu era bem pequena, eu pensava que queria ser uma bailarina clássica, mas com 16 anos cansei do balé — era rígido e formal demais para a minha personalidade, e eu estava apaixonada pelo sapateado.

Naquele ano, assisti na Broadway o show “Chorus Line” e comecei estudando com um sapateador maravilhoso. Eu não decidi que queria ser uma sapateadora profissional até completar 20 anos, e então pensava que seria uma bailarina de dança moderna (contemporânea) e fazer parte de uma companhia de dança moderna. Eu tinha 24 anos quando Brenda Bufalino me convidou para fazer parte da ATDO, e foi então que eu me tornei uma sapateadora profissional.

Há quanto tempo você faz parte da American Tap Dance Orchestra ? O que você pensa sobre todos esses anos trabalhando com a companhia ?

Estou na ATDO desde o início, 1986. Foi uma maravilhosa experiência de treinamento — eu era “verde”, inexperiente, quando eu comecei a trabalhar com Brenda, e me tornei uma experiente rhythm tapper trabalhando com ela. Muitas vezes, trabalhar com a ATDO era bastante desafiador, bastante difícil. E muitas vezes era divertido e engraçado. Nós temos sido como uma grande família, com todas as coisas boas e todas as coisas ruins inerentes a uma família. Acho que fazer parte de qualquer companhia é assim também. Atualmente, Brenda, Tony Waag e eu nos apresentamos em inúmeras performances juntos, apenas nós três, como fizemos no Rio no Tap Encontro. Eu já não sou mais a jovem menina da companhia. Brenda, Tony e eu temos um ótimo relacionamento e ótimos momentos juntos no palco. Eu amo as coreografias de Brenda e amo ver suas performances. Estou sempre aprendendo coisas com ela, e aprendendo mais sobre eu mesma quando eu danço as coreografias dela.

E antes de participar da ATDO, você trabalhou com outras companhias de sapateado ?

Eu fiz algumas de minhas próprias coreografias modernas em performances em pequenos estúdios. Antes de trabalhar com a ATDO, e também durante os últimos anos com a ATDO, quando não havia muito trabalho, eu dancei com um grupo de sapateado chamado Tap Express, e também dancei com duas companhias que executavam Appalachian Clogging e danças folclóricas americanas e internacionais.

O que você sentiu quando você participou da ATDO pela primeira vez ? (Oh, meu Deus, eu acho que se fosse comigo eu não ia conseguir fazer nem um flap…)

Na primeira performance da ATDO em julho de 1986, a companhia era nova e eu era uma performer jovem (embora já tivesse 24 anos). As coreografias eram desafios para todos nós. (Na verdade, três dos números que nós apresentamos no Tap Encontro foram apresentados naquela primeira apresentação da ATDO: “All Blues”, “Pink Ice” e a coreografia latina). Era trabalhoso lembrar de tudo e aprender como se portar no palco.

Conte-nos um pouco sobre a experiência de viajar pelo mundo com a ATDO.

Nós todos nos divertimos muito nas viagens. Eu realmente me sinto privilegiada — tenho viajado por toda a extensão dos Estados Unidos, e já fui para Alemanha, Turquia, Chipre, Polônia, Latvia, Estônia e Bermudas com a companhia. É genial. Em todo lugar que visitamos nós encontramos pessoas maravilhosas. Evidentemente, o que eu me lembro melhor sobre cada cidade onde nós fizemos performances não é o teatro, mas a comida que nós comemos! Eu posso falar sobre o sorvete de Atlanta e o peixe do Chipre e, claro, das caipirinhas do Rio…

Você trabalha sozinha também, você faz performances solo, você dança com Robin Burdulis… o seu estilo de trabalho é o mesmo quando você está dançando sozinha e quando você dança com a ATDO ? Como você se sente dançando solos ? É um modo diferente de você expressar sua maneira de sapatear ?

Eu adoro dançar solo. É muito importante para mim executar minhas coreografias solo. Eu apresentei meu próprio show em Nova Iorque e na Flórida, com Robin Burdulis na percussão e outros três músicos de jazz. Eu tinha experiência, por estar há muito tempo em uma grande companhia (a ATDO era normalmente formada por 8 ou 9 bailarinos) e ter aprendido como trazer para a companhia minha própria personalidade. Mas um integrante de uma companhia tem que colocar de lado alguns de seus anseios e parte de sua potência. Quando eu trabalho solo, minha performance é minha expressão pessoal. Sinto que eu sou capaz de dizer “olhem, esta é outra maneira de ser um sapateador, outro jeito de ser uma mulher”. Eu uso uma boa dose de humor em meus movimentos, muito de sensualidade. Estou tentando no momento tornar meu show solo ainda mais pessoal, estou transformando-o mais em uma peça e não apenas em um show de dança.

Você é uma professora maravilhosa, especialmente em suas turmas de improviso. Por favor, fale para nós um pouco sobre improviso. Você acha que um sapateador que não improvisa é um meio sapateador ?

Não, há sapateadores que gostam de improvisar e sapateadores que não gostam de improvisar. É muito pessoal. E o amor ou o ódio de improvisar dos bailarinos pode mudar durante sua carreira. Nós estamos muito influenciados pelo estilo contemporâneo de Savion Glover e pelos sapateadores bebop como Jimmy Slyde, que apenas improvisa em suas performances. Mas é importante lembrar que muitos dos hoofers do passado, como Honi Coles, realmente coreografavam, não improvisavam em suas performances. Mas todos eles sabiam como improvisar, e esta era a maneira com que eles trocavam experiências e aprendiam novos passos, e como a prática se desenvolveu.

Eu acho que é importante para todos os estudantes de sapateado aprender as técnicas de improviso. O improviso nos conecta a algo que é básico na herança do sapateado: o sapateado era originalmente uma forma de dança que não era ensinada em academias, mas era aprendida nas ruas ou no palco.

Atualmente você ensina na universidade, certo ? Com tem sido essa experiência ? Você também estudou dança em universidade ?

Eu ensino sapateado no Barnard College, que foi onde estudei. E também ensino na Universidade de Nova Iorque no currículo de teatro musical. Na faculdade eu estudei e me graduei em Literatura Inglesa, não em dança. Tive algumas poucas aulas de dança e estudei coreografia na universidade, mas meu principal aprendizado de dança veio dos professores em pequenas academias nos arredores da cidade de Nova Iorque.

Para nós, brasileiros, é mais difícil nos adaptarmos ao jazz. É um estilo diferente, temos que ouvir e ouvir e ouvir para entendê-lo, porque o jazz não está dentro de nossos lares e ouvidos todo dia, a todo momento. Você prefere o jazz como seu estilo musical ?

Eu amo o jazz e é a minha música favorita para ouvir e dançar, mas não sempre. Eu não sabia nada sobre jazz antes do 20 anos de idade e comecei a estudar com Brenda Bufalino. Era tão estranho para mim quanto é para vocês hoje. As crianças nos Estados Unidos não são criadas com o jazz também. Não é tocado nas rádios, e você não irá ouvi-lo a menos que algum amante do jazz apresente ele a você. Levei um grande tempo ouvindo bastante Count Basie, Ella Fitzgerald e Duke Ellington, antes de começar a entender o jazz e apreciar o quão complexo e belo ele é.

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