Tap Web Cíntia Martin

Um mundo de SAPATEADO

Entrevista de Steven Harper a Cíntia Martin – Junho de 1998

Com muito carinho, Steven Harper aceitou conceder-nos a entrevista inicial de nossa homepage, o que nos deixou muito felizes.

Steven Harper é americano mas adotou o Brasil como país de moradia, trabalho e amor. E ninguém mais que Steven se dedica a divulgar a arte do sapateado no Brasil com tanta competência e qualidade. Deliciem-se com esse grande depoimento.

Cintia Martin

Onde você iniciou seus estudos de sapateado ?

Em Nova Iorque, no início dos anos 80.

Houve algum fato marcante que te levou a sapatear ?

Já dançava Jazz e Moderno há alguns anos quando me mudei para Nova Iorque. Lá comecei a fazer aulas de ballet e “theater dance”. Queria dançar em musicais da Broadway e uma base de sapateado é necessária então me inscrevi na academia do Robert Audy. Rapidamente o sapateado foi tomando mais espaço.

Quando foi sua primeira visita ao Brasil dando um curso de sapateado?
Da sua primeira visita a hoje o que você diria que mudou nos estudantes dessa arte ?

Em julho de 1987, a Carlotta Portella me convidou para dar um curso de duas semanas na sua academia no Rio de Janeiro. Em seguido dei outro na Dança e CIA da Stella Antunes e Amalia Machado e em Fortaleza a convite da Vera Passos.

Os alunos eram bons na época. Alias, fazem parte dos “manda-chuvas” hoje no Rio – Stella, Amalia, Flávio Salles, Maurício Silva. Mas éramos ainda ingénuos. Todos nós crescemos muito.

Para nós brasileiros a sua permanência em nosso país nos enriquece muito, mas é inevitável não pensarmos que você deixou seu país de origem, onde é o centro mundial do sapateado. Por que dessa sua decisão?

O sapateado é uma parte importante da minha vida mas não é tudo. Tem outras considerações. Aqui achei um povo bem mais simpático, gosto da música, do jeito de levar a vida e de socializar. Aqui me apaixonei. O clima também é melhor, tem sol e praia o ano todo, nunca gostei do inverno de lá, é longo demais.

Profissionalmente aqui não tem tanta competição, particularmente na área do sapateado. A vida de bailarino em Nova Iorque é barra pesada. Senti que ficando aqui teria mais espaço para crescer e desenvolver um trabalho pessoal, fazer minha marca, ganhar reconhecimento. Pude montar shows que lá não seriam possíveis.

Acho que acabei ganhando muito. O fato de não ter tanta gente para me inspirar me forçou a tomar iniciativa e desenvolver meu estilo. Estou bem feliz com a mudança.

Muitos pensam que na América tudo é mais fácil e na verdade sabemos que não é bem assim… Como você descreve o campo profissional americano ?

Mais fácil? Só fala isso quem nunca tentou a vida de bailarino em Nova Iorque. Quem nunca foi fazer um teste para um show da Broadway onde tem 1500 candidatos para 5 vagas. Lá se aprende muito mas trabalha-se pouco. Tem muita gente para pouquíssimo trabalho.

De uns ano pra cá, o sucesso de shows como Black and Blue, Jelly’s Last Jam e particularmente Bring in the Funk, Bring in the Noise fez o mercado de sapateado crescer sensivelmente mas a grande demanda é para jovens negros. É a revanche histórica dos negros. Parece que finalmente a sociedade americana reconheceu o papel fundamental dos negros no desenvolvimento do sapateado. Para os brancos, não tem muita coisa fora as poucas companhias de sapateado. Infelizmente o mercado americano está muito marcado por essa divisão racial. Mas isso é a história dos Estados Unidos.

Você sente algum tipo de dificuldade em desenvolver o sapateado aqui?

Nenhum tipo de dificuldade que não encontraria em outro lugar. O problema é comigo mesmo: sou um professor ambicioso e quero ver meus alunos se empenhar para crescer rápido. Gostaria de criar profissionais e muitas vezes o aluno só faz sapateado duas vezes por semana, como hobby. Não treina fora da aula. Não tem ambições profissionais. Entendo isso mas sinto falta de ter uma aula de nível profissional.

Como você descreve o sapateado brasileiro e como você vê o futuro e o crescimento do sapateado no Brasil?

Vamos diferenciar o “sapateado brasileiro” do “sapateado no Brasil”. O sapateado brasileiro seria uma tentativa de adaptar a técnica do sapateado americano aos ritmos e aos movimentos tradicionais das danças brasileiras. Da mesma forma que o tap dance nos EUA incorporou movimentos tradicionais da dança jazz (do Charleston, do Lindy Hop, etc), o “sapateado brasileiro” procuraria adaptar movimentos do samba, do frevo ou do chachado, usando a técnica do sapateado americano para criar ritmos e movimentos genuinamente brasileiros.

Não se trata simplesmente de sapatear “à la americano” em cima de ritmos brasileiros. É um trabalho de pesquisa e de originalidade. Acho esse caminho muito interessante e cheio de possibilidades ainda não exploradas. Pouca gente o segue seriamente, pois não é só colocar um sambinha, fazer um dois pra cá dois pra lá e pronto. É muito mais que isso. Uma pessoa que trabalha nesse sentido é a Valéria Pinheiro. Vem fazendo um ótimo trabalho e certamente vai crescer muito mais.

O “sapateado no Brasil” seria então o potencial do sapateado americano no Brasil, que também está cheio de futuro. O sapateado “tradicional” é uma fonte inesgotável. Acho que o brasileiro ainda tem uma certa dificuldade em entender a música jazz e sua levada particular. Infelizmente, pouca gente ensina o swing mas quando essa consciência despertar, sai de baixo!

Vou muito para os festivais de dança onde posso “sentir a temperatura” do sapateado no Brasil. Acho-o muito ingênuo ainda, muito marcado por uma concepção -de números de fim de ano de academia. O jazz está muito a frente. O contemporâneo ainda mais. Vamos trabalhar para mostrar o verdadeiro sapateado. Deixe-o brilhar!

O sapateador americano respeita muito um ao outro pelo que vi nessa semana do sapateado. Você acha que falta isso no Brasil ? O respeito entre os profissionais ?

O que você viu no Tap Encontro é um grande respeito entre dois profissionais reconhecidos. Mas não é sempre assim nos EU. Parte da razão pela qual saí de Nova Iorque é que não aguentava mais os narizes empinados de muitos bailarinos nas aulas e nos testes. As relações humanas tem que ser positivas, pode existir competição mais não pode ser desagradável. Ninguém deveria se achar melhor do que o outro só porque levanta a perna mais alto. É verdade que lá eu estava batalhando mais na área dos musicais do que o sapateado propriamente dito. Sinto que o mundo do tap é diferente. Sapateador é mais legal, mais simples, sem dúvidas.

Aqui também rola um clima positivo. Tive por exemplo um prazer enorme em encontrar a “velha guarda” – Stella, Amalia, Maurício Silva, Flavio Salles, Valéria Pinheiro e você – na mesma sala durante o “Tap Encontro”. Foi uma festa. Tiramos fotos e tudo. Todos nós trabalhamos muito e não nos encontramos no dia a dia. Acho que existe o maior respeito. Não tenho nenhum problema em indicar você ou outra pessoa para um trabalho que não posso cumprir, e procuro também manter um bom contato com os outros profissionais da área, em São Paulo ou outras cidades. O sapateado só vai crescer se a gente se der bem, respeitar uns aos outros e colaborar profissionalmente. Em algumas cidades o clima não é tão positivo. Acho que resulta mais da competição entre academias do que entre os professores de sapateado.

Você acha que falta algum tipo de disciplina no sapateador brasileiro que o impeça de crescer ?

É verdade que nos Estados Unidos quem quer chegar a algum lugar tem consciência de que precisa trabalhar muito. Muito mesmo. O único jeito de melhorar é treinar, trabalhar e suar. É dedicação total.

Alguém te inspirou no passado ? Alguém te inspira no presente ?

Gostava muito do Fred Astaire e do seu estilo dançante. Continuo gostando mas já venho há alguns anos adorando o Jimmy Slyde. Ele corresponde exatamente ao que eu acho que o sapateado tem que ser: a justa mistura do som, do movimento, do feeling e do carisma. Por isso fiquei tão feliz com sua vinda aqui. Mas também fico babando quando vejo fitas de John Bubbles, de Honi Coles, dos Nicholas Brothers. Tecnicamente e ritmicamente, Savion Glover é genial. Das companhias de Concert tap, ainda não achei quem fizesse minha cabeça.

Jimmy Slide mostrou a todos nós sua humildade e prazer por sapatear. Você esteve muito perto dele o que significou para você o contato com Jimmy Slyde ?

Ele é tudo aquilo que passa no palco: simpático, brincalhão, humilde, carismático, engraçado, espontâneo e genial. Ele mostra a todos nós o que o respeito por sua arte e pelos outros trás de positivo. Além de ser um sapateador fora do comum, é a pessoa dele que encanta. Mesmo que sapateasse a metade do que faz, prefiro mil vezes o Jimmy a um ótimo sapateador metido. Estou aqui rasgando seda mas o fato é que ele me impressionou muito. Fiquei inspirado.

O que sapatear significa para você ?

Me encontrei no sapateado. Sempre gostei de dançar e de batucar e o sapateado me permite participar mais da música, estar mais presente, ser mais eu.

Estou constantemente desafiado pelo sapateado. É uma arte que não tem fim, que sempre cresce dentro de mim. No início aprendi técnica e coreografias. De uns anos pra cá descobri a dimensão do improviso. Comecei a dançar e tocar ao vivo com músicos e tive que entender mais da estrutura da música. O improviso permite a real expressão do sapateado.

No palco, uso muito do que Gregory Hines chama de “improvography”, uma mistura de passos ensaiados com momentos livres, de criação espontânea. É sem fim.

Você gostaria de dizer alguma coisa para os sapateadores?

Continue trabalhando, melhorando sempre. Pesquise, procure, tente. Não se pegue á fórmulas, imitações. O sapateado é uma arte alegre, o brasileiro também. Sapatear faz bem. Temos que desenvolver o potencial do sapateado aqui, assim ganharemos o reconhecimento de todos, desenvolveremos nosso mercado de trabalho e asseguraremos nosso futuro.

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