Tap Web Cíntia Martin

Um mundo de SAPATEADO

Entrevista de Valéria Pinheiro a Cintia Martin – Abril de 1999

Valéria Pinheiro é uma pessoa única em todos os sentidos… em seu estilo de sapatear, em seu jeito despojado e alegre de levar a vida, em sua energia, sempre a mil por hora.

Valéria é uma amante do sapateado e criadora de um estilo todo brasileiro de sapatear. Domina ritmos brasileiros como ninguém. Com uma personalidade forte e dotada de uma criatividade sem igual, Val levará você a viajar por sua história e, com certeza, a se encantar com ela.

Tive a deliciosa oportunidade de trabalhar com ela em dois espetáculos e em diversas performances. O que posso dizer é que, se fosse possível voltar o tempo, repetiria várias vezes os improvisos que juntas fizemos.

Obrigada, Valéria, pela bela entrevista, estarei daqui torcendo por você em NY. Já estava na hora de te conhecerem e reconhecerem seu trabalho. Vou usar sua expressão: “Dança, neguinha !!!”

Cintia Martin

Você é engenheira civil formada no Ceará. Como e quando o sapateado entrou na sua vida? Você diz ser autodidata, é verdade ?

Comecei minha faculdade de Engenharia Civil na Brooklyn University em NY, onde cursei dois periodos. Em seguida, voltei para Manaus onde morava até então e cursei mais quatro períodos na Universidade Federal do Amazonas. Meus pais resolveram voltar para o Ceará e lá fui eu terminar minha faculdade na Universidade Federal do Ceará, e mais precisamente em Janeiro de 1983 eu colei grau.

Quando meus pais voltaram para o Ceará em 1980, fiquei muito triste, pois estava no auge de um namoro, tipo paixão de adolescente em Manaus. Com minha transferência, eu resolvi preencher todos os tempos livres da minha vida pra que eu suportasse a falta de Manaus; sabe como é… amigos, namorado ! Então entrei para a Academia Sati Dance para fazer Jazz; nesse mesmo tempo, comecei a me apaixonar pelo sapateado do meu pai que, pra me fazer feliz, juntava amigos e sanfoneiros e dançava o xaxado, o baião, o menero-pau, enfim… danças bem folclóricas do Ceará. Quis aprender, e aí entra a minha mãe, que na epoca de colégio interno havia tido a oportunidade de conhecer um pouco do tap dancing americano. Eu juntei o pouco que minha mãe me ensinou e adaptei aos passos do xaxado do meu pai, e começou assim minha corrida autodidata por uma linguagem que hoje chamo carinhosamente “sapateado-brasileiro”.

Não foi nada fácil, pois nunca tive professores, eu observava os meus ídolos nos filmes, olhava o meu pai sapateando e passava horas trancada no meu quarto criando sons, se é que posso chamar assim. Manaus foi ficando em segundo plano, a dança tomava conta de mim por inteiro e resolvi investir; com alguns amigos percussionistas no Ceará, eu comecei uma pesquisa sobre a manifestação rítmica popular do Ceará, até que, três anos depois dessa corrida autodidata, passou pelo Ceará um sapateador italiano chamado Luciani Luciani, e foi ele quem me deu os nomes de alguns passos que já sabia fazer mas não sabia classificá-los. Ele me abriu portas pra um estudo mais direcionado. Comecei a dar aulas de sapateado – “muita audácia” – mas os alunos queriam aprender um pouco do que havia descoberto sozinha, agora com um pouco mais de técnica.

Você é de Fortaleza. Você veio para o Rio de Janeiro especialmente pelo sapateado ?

Senti necessidade de reciclagem, então pedi à dona da escola que trouxesse algum professor de sapateado do Rio, e foi aí que Tânia Nardini entrou na minha vida. Ela ministrou um curso de uma semana, suguei tudo que um bailarino pode sugar de um mestre. Ela achou legal meu estilo, disse que tinha talento pra coisa, e me convidou para morar no Rio de Janeiro. Me deu bolsa de estudos em todas as modalidades de dança do Centro de Arte do Tempo, escola que pertencia à sua família. Com o convite, veio a minha paranóia, pois havia acabado de me formar como Engenheira Civil, estava já trabalhando nas Docas do Ceará, ganhando bom salário, mas tive que convencer meus pais que precisava de uma pós-graduação, mestrado, pois precisava de um “paitrocinador” para que eu viesse pro Rio. Foi isso que eu fiz, vim por uma licença de 10 dias do emprego, e fiz testes para mestrado em Análise de Sistemas na PUC… não é que eu passei e ainda por cima com 70 % de bolsa. Meu pai não poderia me dizer não. E assim cheguei no Rio de Janeiro. Dançava o dia inteirinho, e a noite fazia o meu mestrado, isso durou dois anos e meio.

Quais as maiores dificuldades que você encontrou ao chegar por aqui ?

Todas as dificuldades que um bailarino normal enfrentaria numa mudança desse nível, em mim foram dobradas. Já não era mais adolescente com o corpo em formação, já tinha 23 anos e toda a minha estrutura já estava formada, e lá fui eu correr atrás de uma pequena técnica em clássico, Jazz, Teatro, acrobacia e, é claro, sapateado. Comecei fazendo muitas aulas todos os dias, e acima de tudo sugando o máximo possível dos professores com quem fiz aulas de sapateado.

Você produziu algumas peças teatrais; de que forma você conseguiu espaço no meio artístico do Rio ?

Continuei estudando na PUC a noite, fazendo estágio na área de computação pela manhã e durante toda a tarde sapateava, ora fazendo aulas, ora estudando sozinha, até que comecei a ministrar aulas no CAT a pedido dos alunos, e aqui encontrei uma grande amiga, Deni Bloch, com quem fundei o Grupo Catsapá. Isso foi em 1984, na mesma época estava fechando o Centro de Arte do Tempo (CAT). Me senti meio sem teto, mas a nossa coragem em manter vivo o grupo foi muito maior, conseguimos um horário de 23:00 às 2:00 da madrugada para trabalhar: lá estávamos nós, de segunda a sexta-feira, madrugada afora, trabalhando em cima de chorinhos, bossa, frevo, samba, baião, enfim, em cima da música brasileira.

Em 1985, já no final do ano eu terminei o meu mestrado e com ele acabou-se o “paitrocínio”, meu pai me convocou a voltar pro Ceará e começar a trabalhar na área de informática. Muito triste, tive de deixar o meu grupo e o entreguei à Gisela Saldanha que, junto com Mabel Tude e Tânia Nardini, baseadas nas coreografias que já havia feito, fizeram um texto delicioso, e nasceu “Na Cola do Sapateado”, que foi meu primeiro trabalho profissional na área de sapateado.

Acompanhei de longe o sucesso do grupo, e sempre que possível pegava um avião e vinha lamber a cria. Até que, no último dia de temporada do espetáculo, naquela época em cartaz no Teatro da Galeria, um diretor chamado Marcio Augusto, se apaixonou pelo meu trabalho e me chamou para coreografar o espetáculo “Annos Loucos”. Quase fiquei louca, pois estava radicada no Ceará e tinha que lhe responder até o dia seguinte. É claro que não consegui dormir! E falei “SIM” ! Voltei pro Ceará no mesmo dia e em menos de uma semana estava de volta e desta vez pra sempre no Rio de Janeiro. Foi tudo muito rápido, pedido de demissão, meus pais enlouquecidos com minha decisão, era tudo novo, mas aqui estou eu há pouco mais de 12 anos morando nessa cidade linda que adotei como minha cidade luz!

Em “Annos Loucos” conheci Jonas Bloch, que era o ator principal do espetáculo, fizemos uma grande amizade e através dele conheci muita gente do meio artístico, pessoas que me abriram portas para trabalhos. Passei a dividir o meu tempo ora ensinando sapateado, ora coreografando peça de teatro e ora produzindo… teatro. E foram muitos trabalhos:

“Tip & Tap – Ratos de Sapatos” (Indicação ao Prêmio Coca-cola pela coreografia),
“A Farsa do Advogado Pathelin”,
“No Jardim das Borboletas”,
“Amores de Verão”,
“Os Dragões” (Prêmio Sharp de melhor espetáculo infantil),
“Aladim e um Gênio Maravilhoso” (Indicação ao Prêmio Coca-cola pela coreografia)

e tantos outros, além de grandes espetáculos que produzi – ou melhor, fiz parte da equipe de produção: “Odeio Hamlet”, “Alô, Madame!”,”Círculo de Quatro Pontas”, “Desejo”, “Um Bonde Chamado Desejo” e, mais recentemente, “O Teatro dos Fantasmas”, além de espetáculos que produzi com a minha Companhia de Sapateado Brasileiro Vatá, que fundei em 1995 e com quem trabalho até hoje.

Por ser do Nordeste, você é bem mais familiarizada com a música regional brasileira do que nós aqui do sudeste ou sul do País e com isso você desenvolveu um trabalho próprio e único de sapatear ritmos brasileiros, tornando-se uma grande mestra do estilo brasileiro de sapatear. Como você avalia isso ?

Costumo dizer, em repente, sempre que faço show solo:

“Sou nordestina sou eu, eu sou lá do Ceará,
terra do Nosso Senhor onde canta o carcará
e onde desde muito cedo eu aprendi a sapatear.
Maracatú do Ceará, samba e pandeiro de cá
na Bahia o berimbau faz o povo delirar
e Gonzagão lá no Sertão se tornou rei do Baião.
Na família eu tenho a força, no meu pai a inspiração,
a semente aqui plantada me faz cidadã amada,
meu Brasil me dá um chão que eu sapateio uma nação.
Etá brasilzão do cão, mas eu amo cada palmo desse chão.”

Então não é muito difícil avaliar o quanto eu amo a manifestação rítmica popular do nordeste; eu nasci e me criei ouvindo o meu pai cantar e ouvir esses ritmos, então faz parte da minha herança musical adquirida. Quanto a ensinar o meu estilo, além de gratificante é muito divertido e gostoso, sou uma professora de sapateado brasileiro que ama passar experiências e aprender cada vez mais com essa troca. Sou muito feliz sapateando e pesquisando cada vez mais os nossos ritmos.

Você tem sempre muitos projetos e sempre bem voltados para a música do som do Brasil traduzido pelos pés, e agora esta partindo para Nova Iorque apresentar seu trabalho, mais que merecidamente. Fale sobre onde você irá se apresentar em Nova Iorque. Como você recebeu o convite e quais as suas expectativas ? Que tipo de trabalho você mostrará em Nova Iorque ?

Em maio de 97, conheci a sapateadora Margaret Morrison, que veio a Brasil participar do Tap Encontro, evento que vem acontecendo sempre no mês de maio para comemorar o dia internacional do sapateado. Naquela ocasião, havia preparado alguns trabalhos para as minhas companhias Vatá, Vatazinho e Vatababy, ela gostou muito do meu estilo e me convidou para levar um pouco do meu Brasil para NY. Infelizmente não consegui dinheiro para tal proeza. Então, em maio de 98, ela veio novamente e junto com ela veio o Jimmy Slide, um sapatedor master e maravilhoso, que também gostou muito do meu trabalho e levaram com eles para NY uma fita de vídeo com alguns trabalhos meus, para que pudessem mostrar pra galera de lá um pouco do meu trabalho.

Em outubro desse ano eu recebi uma carta convite do Commitee to Celebrate National Tap Dance Day para representar o Brasil no Tap Extravaganza. Quase morri do coração de tanta alegria, e resolvi ir à luta e pedir ajuda ao Governo Brasileiro para realizar essa proeza. E consegui muitos parceiros, o primeiro de todos foi o “Quinteto Violado”, um grupo de músicos espetaculares radicados em Pernambuco que me presentearam com uma linda trilha sonora, a partir dos ritmos que lhe pedi.

Juntei Quinteto, Chico César, Chico Science, Batucada Fantástica e eu mesma fiz um roteiro musical a partir da minha ideia inicial em levar dois grandes arquétipos nordestinos e sulistas: o vaqueiro e o sambista. Vamos levar para o Town Hall um espetáculo de 10 minutos enfocando de uma maneira bem brasileira a viagem do vaqueiro descendo o nordeste para conhecer o sambista do Rio de Janeiro; nessa viagem, passaremos lamento nordestino, maracatu, o baião, a capoeira e finalmente samba.

Contamos com a parceria do figurinista Marcelo Marques, que idealizou um figurino a partir do artesanato cearense. Além do couro cru, vestiremos muita renda filé, e sementes originárias do nordeste enfeitarão nossas cabeças, nossos sapatos foram confeccionados baseados nos sapatos dos vaqueiros, além das figuras (mamulengos) em tamanho natural que representam o vaqueiro e o sambista. Tenho como assistente fazendo a direção de movimento Luciana Brite e Marilia Bezerra. A companhia hoje é formada por Luciana Belchior, Flávia Ferreira, Igor de Ramos e Paulinho Fernandes, além da parceria do mestre Camisa com dois capoeiristas : Chá Preto e Teco.

Você dará também um workshop em Nova Iorque ?

Estaremos saindo Brasil no dia 14 de maio, pois ministrarei um Workshop (bossa-nova e samba) durante 4 dias em Nova York para sapateadores de níveis avançado e intermediário. Essas aulas serão acompanhadas por percussionistas, que gentilmente se ofereceram a me ajudar. É claro que vou me divertir muito e tentar passar um pouco da alegria do sapateador brasileiro pra essa gente. Vou também aprender muito, pois antes de ser um workshop é uma troca de cidadania cultural, se é que posso chamar assim, pelo menos é para mim. Recebi hoje, dia 12/4, um fax de NY recebendo a programação, os dias do workshop serão 19, 20, 21 e 22 de maio, infelizmente ainda não sei os locais.

Costumo achar que somos muito influenciáveis aqui no Brasil por não termos acesso direto a shows, livros e vídeos de profissionais. Influenciáveis até num bom sentido, veja bem… quando surge um curso com um determinado sapateador, em especial estrangeiros, a tendência de muitos sapateadores é agarrar com unhas e dentes todas as informações e tentar trabalhar aquele estilo; às vezes, sem perceber, deixamos de lado o potencial criativo que cada um de nós temos internamente e que poderíamos compartilhar com os demais. Você se destaca nesse sentido, pois sempre seguiu sua linha, cada vez mais se aperfeiçoando e crescendo. Você acha que o sapateado no Brasil está no caminho certo ?

Infelizmente quase nunca tenho grana pra fazer esses workshops, mas com certeza sei o quanto é importante essa troca. Tenho tido a sorte de trocar com alguns desses profissionais sem a pretensão de estar fazendo ou dando aulas. Embora não tenha grana pra fazer esses cursos, procuro sempre que possível chegar perto e pedir pra trocar. “Amigo(a) eu sapateio a música brasileira, e você domina o swing, blues, jazz… vamos trocar ?”. Quase sempre deu certo. Além de pessoas maravilhosas, hoje alguns deles faz parte do meu círculo de amigos e tive a oportunidade de trocar com Maggie Morrison, Jimmy Slide, Van Porter, sei que são só alguns minutos, mas a informalidade e o papo aberto sobre nossos trabalhos me fez crescer cada vez mais.

Sei que nós brasileiros estamos de uma maneira geral buscando a nossa memória e as nossas raízes. Afinal, somos responsáveis pelo nosso próprio acervo cultural. Assim é que um país como o Brasil tão rico em cultura vem se destacando no mercado internacional, haja visto “Central do Brasil” com duas indicações para o Oscar, inclusive a de melhor atriz, além do Gil ter trazido pra nós o Grammy. E não é diferente com a dança. A contemporaneidade e a verdade desse nosso Brasil tem estado presente em vários trabalhos de companhias importantes como o Balé de Castro Alves com temas enfocando o Candomblé, a Companhia João Saldanha trabalhando o dia-a-dia carioca, a Cia. Andanças falando sobre Cururu, que é índio quase em extinção no Nordeste e assim por diante.

No sapateado não está tão diferente, nós da Cia. Vatá estamos resgatando o ritmo brasileiro provido das manifestações populares brasileiras. A companhia de sapateado da Bia Mattar em Florianópolis está com o Berimbau Tap em cima de temas musicais bem brasileiros, a Cia. Rossana Pucci no Ceará com quem acabei de montar um trabalho sobre Xangô, a Cia. da Micheli Borges tabém de Fortaleza que trás um pouco do meu estilo também desenvolve a partir dai a sua própria linguagem, além da bem tradiconal Orquestra Brasileira de Sapateado liderada por Stella Antunes, que vem sendo uma fábrica de musicais dentro do seu prórpio estilo. E, embora não conheça mais tantas companhias de Sapateado, tenho certeza que devem existir outras tantas também voltadas à nossa história, às nossas raízes. Torço para que muitas Companhias de dança desse País conte a nossa história, esse é sinceramente o meu desejo.

Você criou as companhias de sapateado “Vatá”, de profissionais e o “Vatazinho”, com amadores e adolescentes. Quais eram os seus objetivos com as companhias e até onde acha que já conseguiu alcançá-los ?

A Cia. de Sapateado Brasileiro Vatazinho, com adolescentes, me deu grandes alegrias, quando participamos juntos de tantos festivais de dança não só no Rio de Janeiro mas em algumas cidades vizinhas. São o meu amanhã, como costumo brincar com eles. Mas é com a Cia. Vatá que faço o meu trabalho mais dirigido ao Teatro e à pesquisa. Nesse instante de nossas vidas, nós da Cia. Vatá vivemos um momento completamente novo e especial, buscamos incorporar a contemporaneidade do dia-dia ao nosso trabalho. Em “Vatá Brasil 500”, espetáculo que agora trabalhamos para levars para NY, trouxe a minha primeira direção a uma coreografia coletiva, ou seja, estamos todos criando e passando por experiências até agora não vividas por nós, uma vez que sempre coreografei sozinha a companhia. Nesse trabalho descobri o quanto crescemos criando juntos. Com certeza esse é o trabalho que mais gosto no momento. Descobri uma nova linguagem pro que chamo de “sapateado contemporâneo brasileiro”, e que com certeza será só o começo do nosso próximo espetáculo, que se chamará “Brasil de Todos os Santos”, onde contaremos a história do ritmo nordestino até chegar ao samba do sul, mas esse é outro assunto, prefiro deixar quieto !

De tantos trabalhos já realizados, qual deles você mais gostou de fazer ?

Como já respondi na pergunta anterior, “Vatá Brasil 500” tem sido um grande presente e é com certeza o trabalho mais dirigido que pretendo fazer no futuro, é portanto o trabalho que mais gosto. Embora “Pré-Som@ – o musical” tenha me marcado de uma maneira bem especial, já que trabalhávamos com uma banda composta por grandes talentos e grandes amigos, num trabalho cheio de ginga e alegria, e fizemos muitos shows pelos espaços do Rio de Janeiro.

O que você espera ainda conseguir através do sapateado ?

Costumo dizer sempre “eu como o que meu pé sapateia”, mas é muito difícil, temos que matar um leão a cada dia pra sobreviver. Mas mesmo assim não seria outra coisa senão sapateadora e pesquisadora dos nossos ritmos e manifestações populares, sou pobre, mas sou feliz ! Espero que nós, amantes do sapateado, possamos ter muito mais abertura com relação às entidades responsáveis pela dança em nosso país. Acho que abri portas quando consegui uma parceria com a Secretaria de Esportes e Lazer nos patrocinando com as passagens e as Secretarias de Cultura e Funarte nos apoiando institucionalmente; é só o começo, podemos conseguir muito mais, acredito e vou lutar pra isso! Nesse instante, quase véspera de embarcarmos para NY, disponho exclusivamente das passagens, ainda não temos hospedagem ou qualquer ajuda de custo para nos manter em NY nesses dez dias, mas tenho certeza que de alguma forma os brasileiros sapateadores ou não vão nos ajudar, só sei que mesmo que tenhamos que acampar no Central Park e nos cobrir com gibão do vaqueiro, e comer nossa rapadura cearense, estaremos com toda garra vestindo a camisa verde-amarela desse país que tanto amo! Não que eu goste, mas sacrifício faz parte da vida da maioria dos artistas brasileiros, quando o Brasil atravessa mais uma de suas várias crises finaceiras. Que tal juntarmos nós, dirigentes de Companhias de Sapateado, e formarmos o comitê de sapateado no Brasil? Com certeza nos fortificaremos.

Quais sãos seus planos para esse ano ? Há algum projeto a longo prazo em mente ?

Desde janeiro trabalho diretamente com a Cia. Vatá este espetáculo “Vatá Brasil 500”. Em maio estaremos em NY, e em junho eu particularmente recebi um convite para participar do Festival de Dança Internacional da Alemanha, mais precisamente em Munique. Vou lutar para que esse convite se estenda a toda a Companhia e possamos conquistar um pouco a Europa com nosso trabalho. Para o segundo semestre, pretendo continuar com nossa pesquisa de linguagem e, quem sabe, começar a trabalhar em cima do “Brasil de Todos os Santos”.

Que conselho você gostaria de deixar a quem está iniciando ?

Se você gosta de sapateado, e é verdadeiro esse sentimento, lute de cabeça erguida, mesmo se não tiver professores de sapateado em sua cidade. Ser autodidata por um lado é bom, a gente perde o medo de inventar sem se preocupar em errar, e acaba criando o nosso próprio estilo. Sou muito feliz como sapateadora e acima de tudo orgulhosa de fazer parte da classe de artistas que fazem de sua arte a auto-estima desse Brasil.

Sua mensagem final…

Cintia, acho que você me proporcionou uma viagem de restropectiva à minha própria vida artística, sinceramente ainda não tinha parado pra pensar sobre essa jornada, e já se passaram mais de 15 anos que sapateio e quase 13 de profissão.

UFA! Sou feliz, neguinha. Obrigada por me proporcionar esses momentos gostosos em responder às suas perguntas, mas acho que você tem que falar também sobre sua vida no sapateado que não é tão diferente da minha. Somos ambas APAIXONADAS PELO SAPATEADO ! Lembra o quanto nos divertimos em “Synopsis”, “Cinco a Dois”, e tantas performances que fizemos nesses bares da vida ? E o tempo vai passando e a gente não tem tempo de lembrar o passado. Mas agora vi o quanto fui feliz em cada um desses momentos que vivi até agora como sapateadora, teria vivido tudo de novo se pudesse voltar o tempo… !

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